Balanço de 2009
Intimidade pra mim nunca foi sexo. Tem tanta gente que faz sexo com quem não conhece e/ou com quem não confia. Intimidade era você ter a tranquilidade de dormir - dormir mesmo - ao lado de alguém que você sabe que não vai se aproveitar da sua inconsciência para aprontar com você. E sabe qual a tosquice maior? Eu passei a noite lá. Eu dormi. E nem por isso criei a mínima intimidade com a criatura em questão. (Desconstruí minha teoria, vou ter que criar outra.) Deve ser porque era de escorpião. Ou porque era estranha mesmo.
Logo na volta pra cá, Krishna entrou na minha vida e eu comecei a fazer ioga. Era como se ele me socorresse do trauma de janeiro e me preparasse para o que me avisou em abril que viria em junho.
Em abril eu fui pra Brasília, para a casa de umas meninas feministas militantes do mundo gay e da raça negra. Curti, matei as saudades da minha cidade, quis voltar logo. Agora tem metrô. Lá tem peixinhos em laguinhos de prédios novos, borboletas azuis no meio do concreto, macarrão em carrinho de cachorro-quente, pirâmides por toda a parte, e uma aura de legião urbana em cada canto do cerrado que recobre solos repletos de cristais. Voltei sob o conselho de deixar pra lá as minhas panelas que pedi para alguém guardar.
No começo de junho perdi o grande amor da minha vida para sempre, a única pessoa da qual eu tinha certeza ter sido alma-gêmea, mesmo que tenhamos mais do que uma. Perdi-a para a morte. Mesmo quando a gente é burra de terminar uma vez e de perder a segunda oportunidade, a esperança de o tempo resolver as coisas e a sua situação financeira e você conseguir propiciar uma nova chance ainda existe, mas quando a pessoa vai embora do mundo, a gente fica sem norte. Ao menos tive tempo de conversar com ela antes que partisse sem saber que ainda me importo.
Em julho eu cheguei a BH logo vendo os animais de hábito noturno numa expedição do zoológico. Em grande parte das vezes, bicho é melhor do que gente. Bicho não sacaneia. Bicho é mais "humano". Pois é. Passei a mão numa piton branca. Não tenho medo. Perigoso mesmo era continuar convivendo com a cobra da qual me livrei meses depois e que se dizia minha amiga.
Dei uma escapada para o Espírito Santo. Vitória, Serra, Vila Velha, tudo em um fim de semana. Foi o que me salvou. Estar com gente que me faz sentir à vontade e transparente. Depois voltei para BH e os livros e aulas foram a minha principal companhia. A gente também vai aprendendo a topar qualquer parada e ao mesmo tempo seguir suas entranhas quando a vontade é de não sair.
Quando voltei, o centro de ioga havia fechado e eu parei. Tentei continuar em casa, mas tão rápido quanto deixei Krishna entrar, ele também teve a liberdade de sair.
Outubro: São Paulo. Meu paraíso na terra. Tanta gente foge para a praia ou pro interior, eu fujo pra metrópole. Eu invado o ritmo marcado e o fluxo constante das linhas irregulares daquela capital. Divido-me entre pessoas do passado, do presente e do futuro, entre as pessoas que me conhecem e as que conhecem meu alter-ego, e - naquela imensidão de gente - ainda consigo quase cruzar as duas coisas no terceiro dia. Lá nem sinto a falta de floresta que sinto aqui. Lá tem parque e tem bosques de luz. E tem gente que eu acredito que goste de mim sinceramente. Gente que pensa parecido.
Vem novembro, e eu ando de ambulância pela primeira vez. Do nada tive vontade de desmaiar no meio da aula. E quase desfaleci mesmo. É engraçado essa palavra, né? 'Des-falecer' não é deixar de falecer. Ou é?
E então a correria de fim de semestre em novembro e uma aula experimental de kickboxing em dezembro. Estou sem preparo físico quanto ao fôlego e tudo o mais, mas em técnica de luta eu fui elogiada. Ainda assim, não gostei da modalidade; prefiro as artes marciais mesmo.
Escrevendo a segunda monografia, transformando o fórum em um site novamente e acrescentando coisas novas, fui ocupando minha cabeça para não adoecer. Às vezes entendo o que vim fazer em São Luís, às vezes não. Para alcançar algumas coisas a gente paga o preço de perder outras.
Não sei mais por que estou escrevendo tudo isso. Talvez para nada. E talvez nem seja para mim.
Aliás, quando falo de mim, me refiro ao meu conjunto de eus ou a uma delas em particular? Ah, tanto faz. Todas estão sem planos para 2010...

lethargic
groggy
frustrated
curious
restless
thoughtful
blank
guilty
touched
relieved
cheerful